A dor do parto – Como lidar

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No post A dor do parto comentamos sobre a tão temida dor do parto. Discorremos sobre as diversas razões pelas quais a sociedade em si coloca um caráter tão negativo nela.

Tivemos o encontro do Maternidade Suave nos dias seguintes e lá pudemos esmiuçar sobre o assunto e entender os porquês dessa dor ser vista como algo ruim; assim como levantar soluções para lidar com a dor do parto de uma forma mais saudável e natural.

Vou enumerar aqui os principais pontos discutidos naquele encontro afim de esclarecer às futuras mamães de que essa dor pode ser muito mais amena que vocês imaginam com a ajuda de técnicas que podem ser trabalhadas por qualquer pessoa, mas com o resultado mais efetivo, caso a parturiente tenha acesso à algumas informações primordiais e a ajuda profissional de uma doula.

Primeiramente falarei do lado emocional. Como o lado emocional pode ter um peso de ouro na percepção de dor da mulher. Desde que comecei acompanhar gestantes em trabalho de parto, tenho observado como o equilíbrio emocional da mulher tem um impacto marcante na percepção das mulheres. E o que seria a fonte deste equilíbrio emocional? A resposta à isso é um conjunto de fatores associados, uns com mais peso, outros com menos.

Um desses fatores é a relação com o parceiro. A mulher que se sente amparada, segura e confiante com o companheiro, vai para o parto muito mais tranquila. Pois ela sabe que ali ela terá um ombro amigo e um incentivador para aquele momento tão importante na vida do casal. Só que a harmonia da relação não é construída de uma hora para outra; ela é construída dia após dias no desenvolvimento da união. E o período pré-natal é uma ótima oportunidade para estreitar os laços do casal, cultivando com muito amor e compreensão. Ou seja, companheiros, apoiem suas mulheres, protejam suas mulheres e lhes dê muito amor, pois vocês as estarão ajudando e muito no processo de parir o filho de vocês.

Outro fator que tem bastante influência no emocional da mulher é saber o que ela pensa a respeito de si. Ela precisa acreditar que ela é capaz. Ela tomar a consciência de que parir é algo natural, que a humanidade está aí graças à gerações de mulheres que deram a luz antes dela e que todas passaram pela tal “dor do parto” e depois tiveram mais filhos. Se milhares de gerações de mulheres conseguiram parir, porque você mulher do século 21 que tem muito mais recursos, não conseguiria? Essa mulher do século 21 precisa desmitificar várias conceitos que até então eram considerados “verdades”, mas que na verdade só minam a coragem da mulher, e no momento de dor mais intensa do trabalho intensa vem a tona para tirar firmeza desta mulher. Daí a importância do empoderamento. De você gestante entender que o corpo é seu, o bebê é seu, e que todas as decisões sobre o seu corpo e seu bebê devem ser compartilhadas com você. Traduzindo, mulher confiante de si, mulher segura sobre suas escolhas, tende a ter  o emocional mais equilibrado, que por conseguinte a ajuda ter uma percepção mais amena da dor.

Ter confiança e vínculo com a equipe que está lhe assistindo é de extrema importância, uma vez que a falta disso pode gerar insegurança na mulher, o que acaba resultando em medo, iniciando assim o ciclo de medo-tensão-dor. Quando estamos com medo, liberamos  no organismo um hormônio chamado adrenalina que nos dá instinto de fuga. E se sentimos medo durante o trabalho de parto é esse mesmo hormônio que é liberado. O problema é que ele compete com a ocitocina nos receptores de ocitocina que tem no útero, aumentando a sensação de dor, já que gera tensão nos tecidos moles (ligamentos do útero). Por outro lado, a adrenalina é um importante hormônio na fase expulsiva do trabalho de parto que é o momento que a mulher precisa de uma energia a mais e para também o bebê nascer mais alerta e assim ter mais facilidade para aprender a mamar e encarar este novo mundo. Só que quando temos altas taxas dessa adrenalina numa fase muito anterior ao expulsivo, ela acaba que não atua de forma tão eficaz durante o expulsivo. Ou seja, o medo gerado durante o trabalho de parto pode prejudicar também a fase expulsiva do bebê.

Não podemos deixar de mencionar a influência do ambiente físico para a percepção de dor da mulher. Ambiente acolhedor, onde se leva em conta a temperatura; iluminação; ruídos sonoros (o que inclui conversas paralelas ao processo que a mulher está vivendo, e pior ainda tentar conversar com a mulher); respeitar a privacidade, de forma que a mulher se sinta protegida sem se sentir observada. O tratamento do ambiente é de suma importância, pois o objetivo daqueles que estão ali assistindo aquela mulher em trabalho de parto deveria ser sempre o de reduzir os estímulos, uma vez que tem certos momentos a mulher entra num estado de tamanho introspecção (caso todos façam o dever de casa direitinho), que se estimulada, a mulher sai deste transe e ao racionalizar o que está vivenciando acaba por aumentar a sua percepção de dor. Diante disso, se você trabalha com parto ou será um acompanhante de uma parturiente, tenha sempre em mente a questão do ambiente que a mulher está inserida e evite ao máximo qualquer tipo de estímulo (o que inclui conversar com essa mulher), principalmente quando ela chegar no momento de mais profunda entrega.

A água é um grande aliado no alívio da dor da mulher em trabalho de parto. A água em si tem um efeito terapêutico durante o TP de ajudar no processo de dilatação, sendo a água quente tem o efeito de alívio de dor, uma vez que o calor relaxa as fibras musculares e ligamentos que estão tensionados durante o TP. Tem estudos que mostram que a água pode reduzir o TP em até duas horas, reduz os hormônios do stress (que inclui cortisol e adrenalina), aumenta as contrações eficazes e acelera a liberação de endorfina (analgésico natural). Em outras palavras, água em TP é tudo de bom! Uma grande amiga das mulheres.

Massagens, óleos de efeito fitoterápico (arnica, camomila, bértula, lavanda…), homeopatia, acupuntura também ajudam demais quando bem aplicados. São ferramentas muito úteis para ajudar a mulher em TP. As doulas em geral são muito boas com as massagens.

O uso do rebozzo auxilia no alívio das tensões dos ligamentos. Uma doula bem treinada em geral sabe utilizá-lo bem. Existe várias técnicas e cada uma indicada para um momento do TP. Em particular ele age no relaxamento dos ligamentos que sustentam o útero, diminuindo assim a sensação de dor da mulher. Vale a pena utilizar essa ferramenta durante o TP.

rebozo

Movimentar-se é essencial não só para diminuir a dor, como também para ajudar na descida do bebê na pelve da mulher. Quando a mulher fica parada numa posição desconfortável, principalmente deitada, a percepção de dor parece triplicar. Logo é de extrema importância a liberdade de movimento da mulher durante o TP. Sabemos que até hoje muitos médicos obrigam mulheres ficarem deitadas durante quase todo TP, e eu só digo uma coisa, isso se chama TORTURA e SADISMO. Negar a mulher o básico que somente a possibilidade de caminhar e se posicionar da maneira mais confortável para ela naquele momento tão forte, para mim não passa de TORTURA e SADISMO. FUJA deste tipo de profissional! Qualquer mulher que já pariu sabe muito bem que forçar uma mulher numa posição desconfortável durante o TP é de extrema maldade. Tem mulheres que podem sim se sentir confortável deitada (são poucas), mas isso tem que ser de escolha dela e não de um terceiro.

posições

Respiração e visualização também são ótimas formas de aliviar a tensão trazida pela dor.

Acredito muito que a respiração seja intuitiva durante as diversas fases do TP, mas tenho observado com certa frequência que mulheres que praticaram Ioga e Pilates durante a gestação apresentaram um padrão de respiração mais fisiológico aos momentos de TP, controlando assim muito melhor os incômodos das contrações, uma vez que respirando bem, você oxigena melhor suas células trazendo maior relaxamento (sem contar que estará oxigenando melhor seu bebê também). Então, caso tenha oportunidade, invista em algum dessas duas atividades físicas durante a gestação.

A visualização seria simplesmente visualizar as etapas que lhe esperam durante o TP. Imaginar seu bebê fazendo a rotação dentro do seu útero; imaginar seu colo do útero abrindo; imaginar seus ligamentos relaxando; imaginar você em outra condição ou em outro local de forma que lhe deixe mais relaxada; imaginar o rostinho do seu filho; e por aí vai. Tentar visualizar coisas positivas que lhe traga mais otimismo nesse momento, pois com pensamentos positivos a mulher tende a aceitar melhor as dores das contrações.

Existe uma outra coisa que tenho observado também com uma certa frequência dentre as mulheres que tenho atendido. Pode parecer um pouco controverso o que vou falar, mas é o que eu vejo acontecer. Mulheres espiritualizadas, que tem uma conexão forte com o Deus da religião delas em geral tem um TP muito mais tranquilo. Não estou falando de mulheres religiosas, mas sim espiritualizadas independente da religião. Durante a minha formação como doula e de tudo que estudei a respeito do universo do parto, eu nunca li nada a respeito disso, mas tenho visto acontecer e não poderia omitir esse fato. Acredito muito que tenha ligação com a outra questão que já mencionei acima sobre o positivismo, assim também com a questão da facilidade da entrega (ponto chave de uma boa evolução do TP). Enfim, se você tem alguma espiritualidade, recomendaria desenvolvê-la durante a gestação, pois ela pode lhe ajudar e muito à enfrentar as dores durante o TP.

E por fim a presença de uma doula pode ajudá-la demais a enfrentar as dores do parto. Doula em geram são mulheres treinadas; muitas delas já tiveram seus bebês por parto normal, ou seja, sabem exatamente o que você está vivendo naquele momento; e que dão suporte físico e emocional para a mulher antes, durante e depois do TP. Ela é uma presença contínua durante o TP da mulher promovendo encorajamento e tranquilidade para mulher. Ela tenta garantir um ambiente tranquilo, acolhedor, confortável. Ela também oferece medidas de alívio de dor através de massagens, uso de rebozo, banhos, sugestão de posições, técnicas de respiração que diminuem a percepção de dor, além de orientar o melhor momento para ir para maternidade. Durante a gestação, a doula é um suporte informativo, ajudando a mulher no seu processo de empoderamento, orientando-a com literaturas do assunto, estudos, equipes que de fato são favoráveis ao parto normal, dentre outras coisas.

Na última revisão da Cochrane (2013) concluiu que “Suporte contínuo durante o trabalho de parto tem benefícios clinicamente significativos para mulheres e crianças e não tem danos. Todas as mulheres devem ter apoio durante o trabalho de parto e parto.”

O suporte contínuo durante o parto oferecido por acompanhante capacitada:

  • Aumenta as taxas de parto normal

  • Reduz a duração do TP e a necessidade de analgesia

  • Maior satisfação com a experiência de parto

  • Redução de 10% no uso de analgesia intraparto

  • Redução de 31% de insatisfação com a experiência do parto

(Hodnett, Gates, Hofmeyr, Sakala. Continous support for women during childbirth. Cochrane, 2013)

Ou seja, a doula reuni numa só pessoa várias ferramentas para alívio da dor da mulher. Ela auxilia a mulher no empoderamento; ela ajuda a mulher no aumento de sua auto-confiança; ela é um suporte emocional antes, durante e depois do parto; ela é um suporte físico durante o parto; ela transforma o ambiente para que o mesmo possa ser mais acolhedor possível; ajuda a mulher na escolha de uma posição confortável… Enfim, uma boa doula bem treinada pode ajudá-la e muito no seu processo de parir.

“Se doula fosse remédio, seria antiético não receitar.” (John H. Kennel)

Esse foi um resumo do que foi conversado no último encontro do Maternidade Suave. Espero ter ajudado as mulheres entenderem melhor como essa dor funciona dentro do corpo de uma mulher em TP e as formas de vencer essa dor.

Se você gostou, venha para o próximo encontro!

 

 

 

 

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