Plano de parto

Muita gente me pergunta sobre o plano de parto.

Você sabe o que é plano de parto?

Plano de parto nada mais é do que um documento redigido pela gestante onde ela descreve os procedimentos que ela não gostaria de ser submetida, assim como outras medidas que ela faz questão de que aconteça, muito relacionado ao ambiente do parto e ao respeito à fisiologia do parto dela. E isso se estende ao bebê também, com requisições distintas.

E então esse documento é apresentado ao corpo de saúde que estará atendendo essa mulher no dia do trabalho de parto.

Se a mulher estiver fazendo seu pré-natal com médico particular com modelo de atendimento um-para-um, ela deve apresentar e discutir os tópicos do plano de parto um pouco antes de entrar a termo. Se a mulher escolher parir pelo SUS é importante levar este plano de parto em três vias. Uma via ficará com a equipe de admissão, outra via com a equipe que lhe assistirá durante o parto e outra com o seu acompanhante.

Segue abaixo um modelo de plano de parto que pode ser tirado como exemplo. Você pode fazer modificações de acordo com o seu desejo. Só um modelo para te guiar na confecção do plano de parto.

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PLANO DE PARTO

Estamos cientes de que o parto pode tomar rumos diferentes do esperado. Mesmo assim, listamos abaixo nossas preferências em relação ao nascimento de nosso bebê, caso tudo transcorra de forma tranquila. Sempre que os planos não puderem ser seguidos conforme solicitamos, gostaríamos de ser previamente avisados e consultados a respeito das alternativas.

  1. Trabalho de parto:
  • Presença de meu marido e doula.
  • Sem perfusão contínua de soro.
  • Liberdade para beber água e sucos enquanto seja tolerado.
  • Liberdade para caminhar e mudar de posição.
  • Liberdade para o uso ilimitado da banheira e/ou chuveiro.
  • Monitoramento fetal: apenas se for essencial, e não contínuo.
  • Analgesia: peço que não seja oferecido anestésicos ou analgésicos.
  • Gostaria de música em som ambiente com playlist de minha escolha. Caso a música me incomode, pedirei para desligar.

2. Durante o nascimento:

  • Gostaria de liberdade de posição, mas aceito sugestões da doula ou equipe médica que estiver me atendendo;
  • Prefiro fazer força quando me der vontade, em vez de ser guiada pelo processo.
  • Gostaria de um ambiente especialmente calmo nessa hora. Não gostaria de ouvir conversas paralelas que possam atrapalhar a minha entrega neste momento.
  • Não desejo episiotomia, a não ser que esteja estritamente necessário, como por exemplo: meu bebê está com BCF não tranquilizadores, meu períneo se mostra rígido e ele tem que nascer rápido e a epsiotomia se mostra uma forma de acelerar o nascimento.
  • Não desejo que seja utilizado manobra de Kristeller de forma alguma.
  • Não pedir que eu realize manobra de Valsava.
  • Após o nascimento, gostaria de ter o bebê imediatamente colocado na altura da minha mama e se houver necessidade de succionar as vias respiratórias, prefiro que seja feito enquanto ele está comigo. (OU: Gostaria que o bebê fosse colocado em meu colo quando eu me sentir preparada para segurá-lo, pois após o parto posso precisar de uma pausa até dar conta de que realmente pari um bebê. Gostaria que esse contato fosse gradativo. Na hora eu decido se vou querer que ele seja colocado imediatamente em meu colo ou não)
  • Gostaria que o bebê seja limpo, sê necessário, em meu colo. E quando digo limpar, quero dizer retirar os rastros de sangue, mecônio (caso tenha) e resquícios do líquido amniótico. Não quero que ele seja esfregado de forma rude. Gostaria que mantivessem o vérnix.
  • O pai cortará o cordão umbilical, depois que esse parar de pulsar.

 

3. Após o parto:

  • Aguardar expulsão espontânea da placenta com auxílio da amamentação.
  • Entendo que o parto só termina depois que a placenta nasce, então peço que o mesmo ambiente tranquilo e de respeito seja mantido até o nascimento da placenta. Sem falatório, escutando no máximo o choro do bebê.
  • O bebe deve ficar comigo o tempo todo, mesmo para avaliação e exames.
  • Liberação para o pós-parto o quanto antes.
  • Alta o quanto antes.

 

4. Cuidados com o bebê:

  • Amamentação sob livre demanda, não oferecer água glicosada ou bicos.
  • Alojamento conjunto o tempo todo.
  • Pediatra fará a avaliação do meu bebê na minha presença.
  • Não aplicar o colírio de Nitrato de Prata;
  • Pode aplicar a vacina de vitamina K;
  • Vacina de hepatite B;
  • O bebê sairá da sala de pré-parto vestido com roupas próprias;
  • NÃO AUTORIZAMOS que o bebê seja banhado por terceiros, o banho será dado pelos pais;
  • Estando o bebê bem, peço que meu bebê não fique na incubadora da maternidade;
  • Após ser apresentado para a família no berçário, gostaria que meu bebê fosse direto para o meu quarto.

 

5. Caso a cesárea seja necessária:

  • Gostaria de, se possível, ter tempo a sós com meu marido para tomar/aceitar esta decisão;
  • Gostaria da presença de meu marido e a doula.
  • Anestesia sem sedação.
  • Gostaria de ver a hora do nascimento, com o rebaixamento do protetor ou por um espelho.
  • Após o nascimento, gostaria que colocassem o bebê sobre meu peito e que minhas mãos estejam livres para segurá-lo.
  • Gostaria que o cordão fosse cortado, somente depois de parar de pulsar, caso seja possível.
  • Amamentação o quanto antes.

Maternidade: Nasce uma nova mulher!

GUEST POST POR JULIA BITTENCOURT

MATERNIDADE

Você já deve ter ouvido essa frase: “Agora que você se tornou mãe, você é uma nova mulher”. E é verdade! Quando você se torna mãe você deixa seu lugar de apenas filha na sua família de origem, de apenas esposa na sua nova família com seu marido, de mulher sem filhos no mercado de trabalho, de amiga disponível pra tooodas as horas no seu círculo de amizades… Você agora também é mãe!

Ou seja, essa pequena palavra inclui uma série de grandes mudanças: existenciais, na família, na rotina, além de uma carga de responsabilidades e expectativas – tanto da sua parte quanto das pessoas ao seu redor. De fato, há uma nova configuração no sistema familiar, na dinâmica, nos papéis, no dia a dia…

E grande parte das mulheres (para não dizer todas!) vive um turbilhão de emoções, geralmente bastante ambíguas: muita felicidade por se tornar mãe, mas se sentem cansadas e exaustas com a nova rotina; poderosas por gerarem um novo ser, mas inseguras se vão conseguir dar conta de cuidar de alguém tão pequeno e dependente; e por aí vai…

Sou psicóloga clínica e perinatal e recebo no consultório mulheres que não se reconhecem com a chegada da maternidade, querem “se resgatar”, sentem-se perdidas e esperançosas com o dia em que tudo “vai voltar ao que era antes”. Mas esse dia não chega!

Muitos autores (Konicheckis; Golse; Stern) afirmam que o nascimento de um filho transforma definitivamente o psiquismo de cada um dos pais. Para Stern, por exemplo, esse evento provoca uma “neoformação psíquica” em ambos, sugerindo que a inclusão do bebê no psiquismo parental produz mudanças profundas e irreversíveis – mudanças que ocorrem em função das projeções e representações parentais sobre o bebê e também mudanças nas interações entre esse bebê e seus pais. Por isso, as novas mães (e os novos pais também) precisam se trabalhar para atualizarem seu novo “eu”!

Acredito que seja um erro focar o pré-natal apenas na parte física e biológica, esquecendo o lado psicológico e emocional. Afinal, somos seres integrados e não podemos separar! Mas na prática, o que vimos é que, ao longo de toda gestação, as mulheres vão às consultas médicas com o obstetra, algumas com o cardiologista, outras com a pediatra antes do filho nascer… Tudo para garantir gravidez e bebê saudáveis.

Poucas são as que se disponibilizam a fazer um acompanhamento psicológico, para se olharem durante a gravidez e se prepararem para o parto e o puerpério, todos momentos de grandes transformações e bastante mobilizadores, além de se prepararem para a maternidade em si – com ela, o luto da antiga mulher e o nascimento de uma nova mulher.

Portanto, é importante o autoconhecimento e uma atualização e aceitação dessa nova identidade. Diferente do que a sociedade impõe, essa transição não é simples e fácil. Ela é complexa e a forma que ocorre e os sentimentos envolvidos variam de mulher para mulher! Mas aos poucos as coisas vão se ajeitando…

Antes de finalizar, só acho importante lembrar que, além de mãe, você continua sendo esposa, filha, amiga, profissional… E a vida continua para além dos filhos! Só que de fato você nunca mais será a mesma: sua identidade e seu papel na sociedade vão ter mudado para sempre.

 

Sobre a psicóloga Julia Bittencourt (CRP: 05/49022):

Julia Bittencourt é psicóloga clínica com ênfase em Gestalt-terapia, com formação em Psicologia Perinatal e Parental e em formação em Terapia Familiar Sistêmica, além de ter capacitação em Psicossomática e em Psicologia Hospitalar, Psico-Oncologia e Luto. Atende gestantes, puérperas e novas mães, além de jovens, adultos e idosos em seu consultório na Barra da Tijuca, e também online no Portal Terapia de Bolso (www.terapiadebolso.com.br). Participa ainda do projeto social da Paróquia São Francisco de Paula (Barra da Tijuca/RJ), realizando atendimento clínico a pessoas com baixa renda e em vulnerabilidade social. Site:www.juliabittencourtpsi.com.br

Amamentação e retorno ao trabalho

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Brincamos no grupo de mães do Maternidade Suave que a maternidade parece muito um jogo de vídeo game, onde cada fase encontramos novas dificuldades, por muitas vezes parecendo mais difícil de lidar do que as anteriores, visto que o que já passou, passou, e o novo costuma ser mais “amedrontador”. E podemos dizer que o retorno ao trabalho é uma das fases mais marcantes do início da maternidade. Somos assoladas por muitas dúvidas, medos, angústias, preocupações e até mesmo culpas por essa separação súbita dos nossos bebês.

No último encontro do Maternidade Suave falamos justamente sobre esse assunto. Assunto este de muita relevância, mas negligenciado, visto que a sociedade nos dá pouco espaço de escuta para esse tema, uma vez que temos que seguir em frente e ponto. No entanto, podemos passar por esse momento amparadas, acompanhadas de forma que o fardo fique mais leve.

Para isso, vou dar aqui algumas dicas e informações que podem lhe ajudar a passar por essa nova fase do videogame de uma maneira mais consciente e tranquilizadora.

Primeiramente vamos entender o que diz a lei. A lei 11.770 de 2008 cria o programa empresa cidadã, destinado a prorrogação da licença-maternidade mediante a concessão de incentivos fiscais. Nela, ela amplia a licença maternidade da mulher para mais 60 dias além dos 120 dias já previstos em lei, totalizando licença maternidade de 180 dias; e prorroga também a licença paternidade em mais 15 dias (totalizando 20 dias), ambas atualizadas pela lei 13.257 de 2016. Ou seja, se sua empresa aderir este programa, você tem direito à esta prorrogação de licença, desde que requeira até o final do primeiro mês após o parto, onde será concedida imediatamente após a fruição da licença-maternidade.

No município do Rio, após o término da licença maternidade a servidora poderá estender seu afastamento por motivo de aleitamento, que poderá ser concedido até a criança completar 1 (um) ano de idade.

No município de São Paulo as servidoras municipais podem chegar 1 hora mais tarde ou sair 1 hora mais cedo para amamentar seus filhos até os 12 meses.

E é recomendado, mas não legislado: pausas para amamentar. Numa jornada de 8 horas, duas pausas de 30 minutos para amamentar ou então para ordenhar. Na empresa, qual trabalhava durante o retorno de minha licença maternidade, eu fazia essas pausas para amamentação, no entanto o local não era dos mais apropriados. Antes mesmo de você retornar ao trabalho, procure saber se na sua empresa existe local adequado para você ordenhar o leite, assim como a existência de freezer para o armazenamento. Algumas poucas empresas possuem lactário em suas dependências, talvez você tenha a sorte de trabalhar numa dessas.

Acredito que a principal dúvida que paira na mente das mães no período de retorno ao trabalho seja com quem vá deixar o seu bebê. Creche, babá, parentes, vizinhos… Por vezes a opção mais desejada não é a possível, pois cada família tem uma realidade financeira e estrutural diferente. Tem mulheres que pensam até em deixar seu trabalho, visto que o custo que terá com os cuidados do bebê, por vezes não compensam o salário que recebe. Gostaria de destacar duas coisas para ser posto na balança no momento dessa escolha. Primeiro, bebês que são cuidados por cuidadores que os conhecem ou os amam possuem um nível de estresse muito menor nessa ruptura com a mãe, do que aqueles que são cuidados por cuidadores comuns. Outro ponto importante é quanto ao sistema imunológico do bebê que estará mais bem preparado para estar em contato constante com outras crianças após os dois anos. E devido a isso, muitos pediatras recomendam aos pais que se possível, até os dois anos, o seu bebê seja cuidado por alguém dentro de suas casas, evitando creches até esse período. Mas é claro que você não precisa morrer de culpa caso precise colocar o seu bebê numa creche, pois na grande maioria das famílias essa seja a opção mais viável. São apenas informações que considero preciosas e que não podem ser esquecidas.

Agora vou dar algumas informações que podem aumentar a sua segurança como mãe neste momento tão delicado.

  • A produção de leite é feita pelo sistema de demanda-suprimento, ou seja, o peito é um fábrica e não um depósito;
  • Quanto mais o bebê mama, mais leite é produzido. Na ausência de sucção é essencial a extração;
  • A prolactina é produzida mais a noite, logo amamentar à noite ajudar manter a produção;
  • Evitar mamadeiras e chupetas. Oferecer o leite em copinhos ou copo de bico rígido;
  • Bebês comportam-se de forma distinta dependendo do cuidador que estiver com ele. Quando você estiver por perto, ele pode se esgoelar logo que você sai da presença dele, mas quando estiver com outro cuidador pode ficar bem tranquilo. Não pense que ele ficará chorando o dia inteiro durante a sua ausência. Esse é um pavor de muitas mães e foi o meu grande medo também.
  • O bebê vai compensar a sua ausência durante o dia, há mamadas mais frequentes durante a noite. Depois até essas mamadas vão se ajustando.

 

-> Armazenamento de Leite

Chegamos ao ponto prático deste assunto. Como armazenar, onde, como ordenhar, qual a melhor bomba, quanto de leite devo oferecer em cada mamada, quanto tempo devo armazenar… Vamos tentar responder essas e outras questões.

  • Será que é necessário ordenhar leite antes de voltar ao trabalho? Eu diria que sim. Algumas semanas antes do retorno ao trabalho, tenta ordenhar com a bomba, de duas a três vezes ao dia após as mamadas do seu bebê. Com isso você garante uma reserva de leite armazenado, já que você não sabe como serão as condições de ordenha no seu trabalho. No início pode parecer pouco leite, mas com o tempo o corpo vai entendendo que você precisará produzir mais e aumentará a produção;
  • Qual seria uma boa quantidade de ordenha?  Bebês que mamam, em geral, mamam de 60 a 120 ml de LM quando estão de fato se alimentando com a mamada. Ou seja, eu indicaria você congelar o leite em porções de 60 ml e com o tempo, você adapta às necessidades do seu bebê.
  • Uma dica legal que recebi nesse período foi, quando ordenhar o leite em casa, congelar em cubos de gelo, pois logo no princípio que o bebê estiver longe de você, ele em geral consome em pequenas quantidades. Assim evita desperdício de LM armazenado;
  • Essa quantidade não aumenta muito a partir dos 6 meses, pois o metabolismo do bebê tende a diminuir e sua eficiência de utilizar da melhor forma aquele leite aumenta. Ao contrário das fórmulas, onde o bebê não adquire essa eficiência e precisa de cada vez maior quantidade de fórmula.
  • Se você ficar fora por umas 9 horas aproximadamente, calcula-se que seu bebê precise de aproximadamente 6 mamadas de 60 ml por dia. Ou seja, 360 ml por dia para bebês que ainda estão na livre demanda.
  • Importante ter um estoque no freezer para o cuidador ir ajustando essa quantidade conforme a demanda do bebê.
  • Posso ordenhar um pouco de leite, armazenar e depois ordenhar novamente no mesmo recipiente? Sim. Você pode ordenhar dentro do vidro, guardar na geladeira e depois ordenhar novamente dentro desse mesmo vidro, num intervalo de 12 horas que este leite está na geladeira, segundo La Leche League;
  • Vocês sabem que o hormônio responsável pela ejeção do leite é a ocitocina, certo? Uma coisa que fazia durante as minhas ordenhas fora de casa era ficar olhando para fotinho da minha filha enquanto ordenhava e acredito que isso possa ter contribuído para a eficaz ejeção do meu leite. No entanto, tem mulheres que podem ficar depressivas ao visualizar a fotinho do seu bebê. Logo é uma estratégia que varia de mulher para mulher. Tenta se perceber, se respeitar e ver como seria isso para você;
  • Se no seu ambiente de trabalho tiver freezer para armazenar o leite, identifique o leite e deixe congelar de um dia para o outro, e leve este leite no dia seguinte da ordenha para casa de forma congelada dentro do cooler.
  • Logo no início, você sentirá a necessidade de ordenhar umas 3 vezes ao dia, mas conforme o tempo for passando, essa necessidade diminui e você passa ordenhar 2 vezes ao dia e por fim uma vez ao dia;
  • Quando você não conseguir ordenhar no trabalho, ao chegar em casa, enquanto você der de mamar numa mama, ordenha a outra com a bomba. Assim evita o desperdício de leite e você se alivia de uma vez só as duas mamas;
  • Qual a melhor bomba de leite? Gosto muito da bomba elétrica swing da Medela. Eu comprei na amazon. Na época que comprei, nas minhas pesquisas era a mais recomendada pelos especialistas, mas ela é um pouco cara e pode não ser de acesso a todos. Então diria que a melhor bomba mesmo são nossas mãos! Sabendo fazer, ordenha até de forma mais rápida que a bomba elétrica. Aqui tem um vídeo de ordenha que gosto bastante. E aqui  e aqui são dois vídeos ensinando a dar leite materno no copinho.

Quanto ao tempo de armazenamento existem muitas tabelas a seguir. A tabela do Ministério da Saúde em geral é mais conservadora, pois ela considera não só os problemas de fornecimento de energia elétrica da população como um todo, assim como não dá para garantir a assepsia na extração do leite, já que estamos falando de realidades diversas.

Segue abaixo algumas tabelas de referência:

  1. Ministério da Saúde: Duração de 12 horas guardados na geladeira e 15 dias estocado no freezer ou congelador. Aqui nesse link você encontra uma Cartilha do Ministério da Saúde para mães que amamentam que pode ser de grande valia.
  2. La Leche League:

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  1. Medela:

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  1. GVA: Grupo Virtual de Amamentação

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Bem basicamente foi um pouco disso que discutimos no último encontro do Maternidade Suave. Espero que tenha ajudado e tranquilizado as mulheres que estão para retornar ao trabalho, pois sei o quanto delicado é esse momento. Dia 30/04/16 teremos mais um encontro do grupo com um tema super atual que pode ser visto na página do Maternidade Suave do facebook. Venha e traga suas dúvidas e anseios!

Beijo grande!

 

 

 

Relato de parto de Kátia

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O melhor de mim

Desde antes de engravidar Carlos, meu esposo, defendia o parto humanizado (embora ainda não conhecesse esse termo) ao deixar claro que ficaria feliz que seu filho nascesse na água, porque era melhor para o bebê e para mim também. Eu achava muito estranho e pensava que deveria dar um jeito de fazê-lo desistir dessa “ideia maluca”. Pensava ser um conflito cultural (Carlos é colombiano) que eu tinha para resolver.
A gravidez foi muito tranquila e saudável. Tinha uma obstetra/ginecologista de total confiança, afinal ela é pesquisadora e para mim isso bastava. Então, estava em boas mãos.

Um dia, a caminho de uma consulta pré-natal, Carlos ressaltou a importância de conversar sobre o parto e eu logo disse que estava certa que seria cesárea, era o mais lógico e seguro e por aí segui meu discurso persuasivo: “nós devemos confiar na medicina, amor, na ciência (afinal somos pesquisadores, ambos fazendo doutorado)… se a cesárea existe é para evitar problemas…” (doutorandos ignorantes rsrsrsr).
Pois bem, nesse dia Carlos apenas disse que me apoiaria em qualquer decisão, desde que ela fosse o melhor para mim.
Por intermédio de uma amiga (Patrícia Asta), assistimos ao filme O Renascimento do Parto e, ao final, Carlos disse “e aí, como Ana Clara virá ao mundo?” e eu respondi “é certo que não pode ser cesárea, a menos que estritamente necessária, mas não sei como vou fazer isso”.

O fato é que o filme me tirou da zona de conforto – Ana Clara não ficaria para sempre na minha barriga e eu tinha que tomar uma decisão. E a cesárea já não fazia sentido, visto que tudo estava muito bem. E para decidir eu precisava me informar (hoje eu sei que isso é empoderar!)
Foi a partir daí que ele literalmente ” deu seu jeito” e por meio da mesma amiga fomos apresentados ao grupo Maternidade Suave e à querida Aline Barreto.

Confesso que não acreditava que aquilo tudo que falavam pudesse dar certo, não era minha realidade. Um dia ouvi lá que parir era gostoso e achei uma maluquice. Eu era e fui por muito tempo a mais cética do grupo; parecia uma militância exageradamente radical, muito distante das “minhas” crenças científicas (doutoranda ignorante mais uma vez rsrsrs).

Mas o grupo foi essencial no meu processo de empoderamento. É claro que deixei “minha” obstetra pesquisadora, li muitos artigos científicos (Sim, eles existem!!!) sobre parto natural humanizado e iniciei uma maratona em busca de uma que respeitasse minhas escolhas e permitisse à minha familia escrever nossa própria história.

E assim chegamos ao dia P-1, 39 semanas e 3 dias. Eram 3:15h do dia 29/04/15 e já não consegui mais dormir. Há alguns dias dormir já não era mesmo uma tarefa fácil.  Mas dessa vez não era só o incômodo de falta de posição na cama. Estava com cólica. Ebaaaaaaaaaaaa, que delicia! Fiquei empolgada e senti que aquele era um dia diferente. Não acordei Carlos, mas não dormi mais. Tinha um perfil biofísico fetal para fazer naquele dia, como rotina da consulta semanal, e fomos para a maternidade. Já havia contado para Carlos, a cólica vinha acompanhada de uma leve contração e nós comemorando…durante o exame comentei com a médica e ela disse que podia até ser,  mas muito incipiente, colo grosso ainda.

Carlos foi trabalhar, voltei para casa dirigindo e as contrações foram aumentando em intensidade. Mas estavam longe de terem alguma regularidade. Almocei com minha mãe, tomei um banho e fomos para o shopping – a essa altura eu sabia que estava diferente, mas estava convencida de que poderia levar mais de um dia ainda, então pensei “vamos andar para não ficar pensando na dor”.
Avisei minha doula Aline Barreto e fui ” bater perna” no shopping. Quando vinha a contração eu disfarçava. Não tinha contado para minha mãe para não criar expectativa, afinal podia durar muitas horas ainda em trabalho de parto e não queria controlar o tempo.  Portanto, eu curtia a dor. Me emocionava a cada contração porque ela me aproximava da minha princesinha.

Chegamos em casa às 19:30h e fui para o quarto. As contrações estavam muito fortes, Carlos chegou do trabalho e eu mostrei os registros no aplicativo. Conversando com minha mãe na mesa de jantar veio uma contração muito forte e aí não deu pra disfarçar…e quando ela passou eu disse: ” sua netinha quer nascer”. Sorrimos, transbordando amor…
Fui para o quarto e aí já perdia a graça em cada contração. Buscava a posição, me concentrava na respiração e esperava…estava aumentando a intensidade e a duração entre as contrações era de apenas 2s. Quando mandei os registros do aplicativo para a Aline ela imediatamente disse que viria para minha casa e mandou que eu fosse para o chuveiro quente. Era a prova. Quando ela chegou em casa, cerca de meia hora depois, eu estava totalmente sem humor. Doía muito, tinha perdido o tampão mucoso, já havia avisado a obstetra e ela pediu que fosse à maternidade para ser examinada.

Eu me questionei se suportaria a dor do parto, porque ainda não tinha caído a ficha de que estava em trabalho de parto ativo, e se demorasse muito seria insuportável. Eu pensava que talvez eu tivesse usado o aplicativo de forma errada, apesar da Aline confirmar que realmente já estava engrenado. Fomos então para a maternidade; na minha cabeça, voltariamos e teria um longa jornada pela noite toda e, quem sabe, na manhã seguinte nós caminhariamos no parque do condomínio, piscina, massagens….ia fazendo planos para o meu TP.
Mal chegamos na maternidade, que fica a 5 min de casa, e eu não pude suportar a contração. Entrei sem mesmo fazer registro na emergência e, ao ser examinada, para minha surpresa (só MINHA mesmo!!!! Rsrsrs) eu estava com dilatação total!!!
Eram 22:40h e eu não acreditava. Não que eu não estivesse sentindo dor, estava muitooooooo intenso, mas para mim ainda ia demorar. Olhei para Aline e perguntei se a medica estava certa kkkkkkkkkkkkk. E então era mesmo a hora.

A médica (plantonista) ligou para minha obstetra, enfermeiras começaram a tirar minhas roupas, me colocaram numa cadeira de rodas e subimos para o centro cirúrgico. Eu tinha me preparado para ter o parto na água, mas então me informaram que a sala estava ocupada. Enquanto me encaminhavam para o centro cirúrgico, fui apresentada ao sistema:
1. a enfermeira brigou comigo porque meu cabelo estava molhado (oh, meu Deus, eu devia estar com cabelos escovados, soltos ao vento), tentaram secá-lo com secador, mas veio uma contração e eu saí da cadeira de rodas e fiquei encolhida no chão e ela desistiu de mim;

2. ao chegar no centro cirúrgico, a equipe de plantão a postos e a médica mandou que eu deitasse em posição ginecológica (hein?????) e eu falei que não… A contração veio e eu fiquei de quatro na maca (porque ela não me deixou ir para o chão);

3. Estavam preparando o instrumental para o parto normal e mandaram que eu deitasse para colocar o acesso à medicação (hein????) e eu novamente recusei, dizendo em meio a contrações que eu tinha escolhido o parto natural, que não queria anestesia nem medicação. Enfim, entre uma contração e outra eu brigava com o sistema e a plantonista me achando louca!!!!  Afffffffff

Minha obstetra chegou em 25 min (ufaaaaaaaa) e então trocou-se o cenário!!! De cara, ela me perguntou em que posição queria ficar (isso é respeito!!). Ela e minha querida doula prepararam a sala para que eu ficasse em cócoras, improvisaram uma banqueta para que o Carlos pudesse me apoiar e elas ficaram ali, NO CHÃO (sim, porque elas respeitaram a minha escolha).

Luzes apagadas e a canção Reconhecimento tocando. Foi assim, num ambiente de celebração, de expressão máxima do amor, numa explosão de ocitocina, que Ana Clara veio ao mundo às 00:26h do dia 30 de abril.

Tudo muito lindo, prazeroso. E rápido! E, de fato, eu pude comprovar que o círculo de fogo te conduz do inferno ao céu em milésimos de segundos e você já não sente mais nada a não ser muito amor.

Dizer que não dói é mentira, dói de forma indescritível, mas não é o conceito de dor que conhecemos, conectada a um sofrimento. É uma dor de amor. Sagrada. Prazerosa. Puro êxtase.

Quando senti Ana Clara escorregar foi gostoso e eu desejei sim sentir tudo de novo. Parir é lindo!

E tê-la de uma forma tão respeitosa – Carlos participando de todo o processo me segurando em cada contração, médica e doula ali esperando a nossa hora, Ana Clara nos meus braços cheia de vernix, pediatra esperando o cordão parar de pulsar e entregando a Carlos para ele cortar, Ana Clara mamando e nós três ali, em contemplação por um tempo…
Quando levantei da posição não senti nenhuma dor, estava ótima, realizada e muito, muito feliz.

Sem pressa, sem hora marcada. Na hora dela, do jeito que eu escolhi. Perfeito. Divino. Eu vejo este cenário como uma grande celebração. Não houve sofrimento, só amor.

De tudo isso, grandes lições:
– não há decisão sem informação. Muito grata ao Carlos que correu atrás da informação e ao grupo Maternidade Suave, em especial à querida Aline;
– a natureza é perfeita, nós sabemos parir e os bebês sabem nascer. É uma sintonia, um encaixe perfeito.
– o sistema é uma merda (nojo)
– parir é divino, sagrado!
– e a dor? É a dor que você vai  amar, incondicionalmente, como nunca amou.

Kátia Kelvis Cassiano Lozano

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Fases do desenvolvimento motor do bebê e criança

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Os primeiros movimentos realizados pelo recém nascido são considerados pré-funcionais, ou seja, são preparatórios para os movimentos mais maduros que aparecerão ao longo do seu desenvolvimento. Estes movimentos pré-funcionais já podem ser observados a partir de 15 semanas de gestação, e ocorrem em resposta aos estímulos e não pela vontade do feto. A sucção, deglutição e preensão, são exemplos desses movimentos que ajudam e mantem a sobrevivência do bebê nas primeiras semanas de vida.

Até os 28 dias de vida, o bebê é considerado um recém nascido, mas você pode se surpreender com os movimento que ele já é capaz de fazer, como por exemplo, esticar as pernas com força, girar no berço e até simular uns passos quando colocado em pé. Todos estes são movimentos pré-funcionais ou reflexos se transformarão de um comportamento motor automaticamente desencadeado para uma atividade sujeita ao controle da vontade, através da prática e experiência. Seu recém nascido também é capaz de acompanhar brevemente, um objeto ou um rosto, mas sua visão ainda é pouco nítida.

Entre 1 e 2 meses de vida, os bebês iniciam o treinamento para o controle de cabeça, esta será a primeira grande aquisição motora do seu bebê, que quando apoiado com a cabeça em seu ombro ficará jogando-a para trás com força.

Uma dica interessante para o bebê dormir por mais tempo nesta fase, é aninhá-lo para que se sinta apertado, com os membros superiores junto ao corpo. Pode utilizar rolinhos, mantas, enrolando-o como um charuto ou fazendo ninhos. Além de todo o benefício de reviver assim a sensação de aconchego no útero, há uma grande vantagem para o reflexo de Moro não acordar o bebê. Este reflexo aparece quando o bebê se assusta com algo, que pode ser um barulho até baixo para nós, e desencadeia um movimento rápido de abertura e extensão dos braços, simulando um abraço. Este “susto” seguido deste movimento normalmente acorda o bebê, por isso, envolvê-lo com os braços apertadinhos, pode inibir este reflexo, permitindo assim um sono mais longo para eles e para os pais.

Todos os marcos do desenvolvimento que serão mostrados a seguir, são uma estimativa do momento que seu bebê poderá atingi-los e pode ser adiado ou adiantado em 2 meses.

3 meses: Capacidade de observação das próprias mãos com os olhos, levando ambas ao centro do corpo, uma preensão simples de objetos. O controle do pescoço já estará bem desenvolvido e ele conseguirá manter a cabeça firme por alguns segundos.

4 meses: O bebê consegue ficar de bruços apoiado em seus antebraços, nesta fase ele já pode rolar em bloco, isto é, realizar o movimento de rolar de prono para supino, sem dissociar o quadril dos ombros.

5 meses: o bebê consegue colocar os pés na boca, e a preensão dos objetos é tão forte que há dificuldade em soltá-los. Os movimentos sempre se iniciam de grosseiros para depois serem refinados, por isso a preensão pode ser bem forte no começo. Pode se virar ao escutar o próprio nome, põe objetos na boca e se mantém-se sentado com apoio a frente do corpo. De bruços consegue esticar os braços e manter o apoio nas mãos. Quando puxado para sentar, o bebê faz flexão e eleva a cabeça, acompanhando o movimento.

6 meses: Imita sons, faz bolinhas de cuspe, se vira de barriga para cima e para baixo,  dissociando as cinturas, senta com menos apoio, especialmente esta última aquisição demonstra que seu bebê está pronto para iniciar a alimentação sólida.

7 meses: senta sem apoio, já pode se arrastar e puxar objetos em sua direção.

8 meses: transfere objetos de uma mão para a outra e atira-os no chão, pode estar engatinhando. O engatinhar não é considerado um marco do desenvolvimento pois muitos bebês deixam de realizá-lo e já é comprovado que não interfere em nada para a aquisição da marcha.

9 meses: aponta para o que deseja, inicia o uso de movimento de pinça, bate um objeto contra o outro e deixa de devolvê-lo a quem lhe foi dado, fica em pé com apoio. Começa a introduzir o dedo indicador no ouvido, boca e nariz das pessoas.

10 meses: A marcha lateral pode ser iniciada, esta é uma ferramenta importante para transferir o peso de um pé para o outro e se preparar para a marcha independente. Mostra o que quer com gestos, pode dar tchau.

11 meses: Coloca objetos dentro de um recipiente, quando faz mais esforço para alguma ação, abre a boca e a mão oposta, demonstrando a dificuldade em realizar tal tarefa. Pode ficar em pé sozinho por alguns segundos e imita ações dos outros.

12 meses: Atende e cumpre instruções simples, como entregar um objeto que lhe foi dado, pode dar alguns passinhos, com base alargada e membros superiores elevados.

14 meses: Andar sem apoio, subir em móveis, andar na ponta dos pés e correr costuma ser alcançado nesta fase, também vira páginas de revistas e jornais, rabisca papéis.

15 meses: Pode comer sozinho com a colher, e já se estabelece a preferência por uma das mãos. Consegue subir escadas com ajuda das mãos nos joelhos.

18 meses: Realiza marcha com apoio dos calcanhares, corre com firmeza.

24 meses: Começa a se despir e vestir voluntariamente. Consegue descer degraus de forma não recíproca.

Aos 2 anos não é mais considerado um bebê, assim a criança de 2 á 3 anos, já consegue chutar uma bola sem perder o equilíbrio e atirá-la por cima do braço, também pode saltar com os dois pés juntos e subir escadas alternando os pés.

Aos 4 anos fica apoiado sobre um dos pés e pular com um pé só.

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Nathália Moura é mãe de Maria Clara, entusiasta do universo da maternidade,  Fisioterapeuta e Mestre em Ciência da Reabilitação.

A dor do parto – Como lidar

Dicas-para-amenizar-as-dores-na-hora-do-parto

No post A dor do parto comentamos sobre a tão temida dor do parto. Discorremos sobre as diversas razões pelas quais a sociedade em si coloca um caráter tão negativo nela.

Tivemos o encontro do Maternidade Suave nos dias seguintes e lá pudemos esmiuçar sobre o assunto e entender os porquês dessa dor ser vista como algo ruim; assim como levantar soluções para lidar com a dor do parto de uma forma mais saudável e natural.

Vou enumerar aqui os principais pontos discutidos naquele encontro afim de esclarecer às futuras mamães de que essa dor pode ser muito mais amena que vocês imaginam com a ajuda de técnicas que podem ser trabalhadas por qualquer pessoa, mas com o resultado mais efetivo, caso a parturiente tenha acesso à algumas informações primordiais e a ajuda profissional de uma doula.

Primeiramente falarei do lado emocional. Como o lado emocional pode ter um peso de ouro na percepção de dor da mulher. Desde que comecei acompanhar gestantes em trabalho de parto, tenho observado como o equilíbrio emocional da mulher tem um impacto marcante na percepção das mulheres. E o que seria a fonte deste equilíbrio emocional? A resposta à isso é um conjunto de fatores associados, uns com mais peso, outros com menos.

Um desses fatores é a relação com o parceiro. A mulher que se sente amparada, segura e confiante com o companheiro, vai para o parto muito mais tranquila. Pois ela sabe que ali ela terá um ombro amigo e um incentivador para aquele momento tão importante na vida do casal. Só que a harmonia da relação não é construída de uma hora para outra; ela é construída dia após dias no desenvolvimento da união. E o período pré-natal é uma ótima oportunidade para estreitar os laços do casal, cultivando com muito amor e compreensão. Ou seja, companheiros, apoiem suas mulheres, protejam suas mulheres e lhes dê muito amor, pois vocês as estarão ajudando e muito no processo de parir o filho de vocês.

Outro fator que tem bastante influência no emocional da mulher é saber o que ela pensa a respeito de si. Ela precisa acreditar que ela é capaz. Ela tomar a consciência de que parir é algo natural, que a humanidade está aí graças à gerações de mulheres que deram a luz antes dela e que todas passaram pela tal “dor do parto” e depois tiveram mais filhos. Se milhares de gerações de mulheres conseguiram parir, porque você mulher do século 21 que tem muito mais recursos, não conseguiria? Essa mulher do século 21 precisa desmitificar várias conceitos que até então eram considerados “verdades”, mas que na verdade só minam a coragem da mulher, e no momento de dor mais intensa do trabalho intensa vem a tona para tirar firmeza desta mulher. Daí a importância do empoderamento. De você gestante entender que o corpo é seu, o bebê é seu, e que todas as decisões sobre o seu corpo e seu bebê devem ser compartilhadas com você. Traduzindo, mulher confiante de si, mulher segura sobre suas escolhas, tende a ter  o emocional mais equilibrado, que por conseguinte a ajuda ter uma percepção mais amena da dor.

Ter confiança e vínculo com a equipe que está lhe assistindo é de extrema importância, uma vez que a falta disso pode gerar insegurança na mulher, o que acaba resultando em medo, iniciando assim o ciclo de medo-tensão-dor. Quando estamos com medo, liberamos  no organismo um hormônio chamado adrenalina que nos dá instinto de fuga. E se sentimos medo durante o trabalho de parto é esse mesmo hormônio que é liberado. O problema é que ele compete com a ocitocina nos receptores de ocitocina que tem no útero, aumentando a sensação de dor, já que gera tensão nos tecidos moles (ligamentos do útero). Por outro lado, a adrenalina é um importante hormônio na fase expulsiva do trabalho de parto que é o momento que a mulher precisa de uma energia a mais e para também o bebê nascer mais alerta e assim ter mais facilidade para aprender a mamar e encarar este novo mundo. Só que quando temos altas taxas dessa adrenalina numa fase muito anterior ao expulsivo, ela acaba que não atua de forma tão eficaz durante o expulsivo. Ou seja, o medo gerado durante o trabalho de parto pode prejudicar também a fase expulsiva do bebê.

Não podemos deixar de mencionar a influência do ambiente físico para a percepção de dor da mulher. Ambiente acolhedor, onde se leva em conta a temperatura; iluminação; ruídos sonoros (o que inclui conversas paralelas ao processo que a mulher está vivendo, e pior ainda tentar conversar com a mulher); respeitar a privacidade, de forma que a mulher se sinta protegida sem se sentir observada. O tratamento do ambiente é de suma importância, pois o objetivo daqueles que estão ali assistindo aquela mulher em trabalho de parto deveria ser sempre o de reduzir os estímulos, uma vez que tem certos momentos a mulher entra num estado de tamanho introspecção (caso todos façam o dever de casa direitinho), que se estimulada, a mulher sai deste transe e ao racionalizar o que está vivenciando acaba por aumentar a sua percepção de dor. Diante disso, se você trabalha com parto ou será um acompanhante de uma parturiente, tenha sempre em mente a questão do ambiente que a mulher está inserida e evite ao máximo qualquer tipo de estímulo (o que inclui conversar com essa mulher), principalmente quando ela chegar no momento de mais profunda entrega.

A água é um grande aliado no alívio da dor da mulher em trabalho de parto. A água em si tem um efeito terapêutico durante o TP de ajudar no processo de dilatação, sendo a água quente tem o efeito de alívio de dor, uma vez que o calor relaxa as fibras musculares e ligamentos que estão tensionados durante o TP. Tem estudos que mostram que a água pode reduzir o TP em até duas horas, reduz os hormônios do stress (que inclui cortisol e adrenalina), aumenta as contrações eficazes e acelera a liberação de endorfina (analgésico natural). Em outras palavras, água em TP é tudo de bom! Uma grande amiga das mulheres.

Massagens, óleos de efeito fitoterápico (arnica, camomila, bértula, lavanda…), homeopatia, acupuntura também ajudam demais quando bem aplicados. São ferramentas muito úteis para ajudar a mulher em TP. As doulas em geral são muito boas com as massagens.

O uso do rebozzo auxilia no alívio das tensões dos ligamentos. Uma doula bem treinada em geral sabe utilizá-lo bem. Existe várias técnicas e cada uma indicada para um momento do TP. Em particular ele age no relaxamento dos ligamentos que sustentam o útero, diminuindo assim a sensação de dor da mulher. Vale a pena utilizar essa ferramenta durante o TP.

rebozo

Movimentar-se é essencial não só para diminuir a dor, como também para ajudar na descida do bebê na pelve da mulher. Quando a mulher fica parada numa posição desconfortável, principalmente deitada, a percepção de dor parece triplicar. Logo é de extrema importância a liberdade de movimento da mulher durante o TP. Sabemos que até hoje muitos médicos obrigam mulheres ficarem deitadas durante quase todo TP, e eu só digo uma coisa, isso se chama TORTURA e SADISMO. Negar a mulher o básico que somente a possibilidade de caminhar e se posicionar da maneira mais confortável para ela naquele momento tão forte, para mim não passa de TORTURA e SADISMO. FUJA deste tipo de profissional! Qualquer mulher que já pariu sabe muito bem que forçar uma mulher numa posição desconfortável durante o TP é de extrema maldade. Tem mulheres que podem sim se sentir confortável deitada (são poucas), mas isso tem que ser de escolha dela e não de um terceiro.

posições

Respiração e visualização também são ótimas formas de aliviar a tensão trazida pela dor.

Acredito muito que a respiração seja intuitiva durante as diversas fases do TP, mas tenho observado com certa frequência que mulheres que praticaram Ioga e Pilates durante a gestação apresentaram um padrão de respiração mais fisiológico aos momentos de TP, controlando assim muito melhor os incômodos das contrações, uma vez que respirando bem, você oxigena melhor suas células trazendo maior relaxamento (sem contar que estará oxigenando melhor seu bebê também). Então, caso tenha oportunidade, invista em algum dessas duas atividades físicas durante a gestação.

A visualização seria simplesmente visualizar as etapas que lhe esperam durante o TP. Imaginar seu bebê fazendo a rotação dentro do seu útero; imaginar seu colo do útero abrindo; imaginar seus ligamentos relaxando; imaginar você em outra condição ou em outro local de forma que lhe deixe mais relaxada; imaginar o rostinho do seu filho; e por aí vai. Tentar visualizar coisas positivas que lhe traga mais otimismo nesse momento, pois com pensamentos positivos a mulher tende a aceitar melhor as dores das contrações.

Existe uma outra coisa que tenho observado também com uma certa frequência dentre as mulheres que tenho atendido. Pode parecer um pouco controverso o que vou falar, mas é o que eu vejo acontecer. Mulheres espiritualizadas, que tem uma conexão forte com o Deus da religião delas em geral tem um TP muito mais tranquilo. Não estou falando de mulheres religiosas, mas sim espiritualizadas independente da religião. Durante a minha formação como doula e de tudo que estudei a respeito do universo do parto, eu nunca li nada a respeito disso, mas tenho visto acontecer e não poderia omitir esse fato. Acredito muito que tenha ligação com a outra questão que já mencionei acima sobre o positivismo, assim também com a questão da facilidade da entrega (ponto chave de uma boa evolução do TP). Enfim, se você tem alguma espiritualidade, recomendaria desenvolvê-la durante a gestação, pois ela pode lhe ajudar e muito à enfrentar as dores durante o TP.

E por fim a presença de uma doula pode ajudá-la demais a enfrentar as dores do parto. Doula em geram são mulheres treinadas; muitas delas já tiveram seus bebês por parto normal, ou seja, sabem exatamente o que você está vivendo naquele momento; e que dão suporte físico e emocional para a mulher antes, durante e depois do TP. Ela é uma presença contínua durante o TP da mulher promovendo encorajamento e tranquilidade para mulher. Ela tenta garantir um ambiente tranquilo, acolhedor, confortável. Ela também oferece medidas de alívio de dor através de massagens, uso de rebozo, banhos, sugestão de posições, técnicas de respiração que diminuem a percepção de dor, além de orientar o melhor momento para ir para maternidade. Durante a gestação, a doula é um suporte informativo, ajudando a mulher no seu processo de empoderamento, orientando-a com literaturas do assunto, estudos, equipes que de fato são favoráveis ao parto normal, dentre outras coisas.

Na última revisão da Cochrane (2013) concluiu que “Suporte contínuo durante o trabalho de parto tem benefícios clinicamente significativos para mulheres e crianças e não tem danos. Todas as mulheres devem ter apoio durante o trabalho de parto e parto.”

O suporte contínuo durante o parto oferecido por acompanhante capacitada:

  • Aumenta as taxas de parto normal

  • Reduz a duração do TP e a necessidade de analgesia

  • Maior satisfação com a experiência de parto

  • Redução de 10% no uso de analgesia intraparto

  • Redução de 31% de insatisfação com a experiência do parto

(Hodnett, Gates, Hofmeyr, Sakala. Continous support for women during childbirth. Cochrane, 2013)

Ou seja, a doula reuni numa só pessoa várias ferramentas para alívio da dor da mulher. Ela auxilia a mulher no empoderamento; ela ajuda a mulher no aumento de sua auto-confiança; ela é um suporte emocional antes, durante e depois do parto; ela é um suporte físico durante o parto; ela transforma o ambiente para que o mesmo possa ser mais acolhedor possível; ajuda a mulher na escolha de uma posição confortável… Enfim, uma boa doula bem treinada pode ajudá-la e muito no seu processo de parir.

“Se doula fosse remédio, seria antiético não receitar.” (John H. Kennel)

Esse foi um resumo do que foi conversado no último encontro do Maternidade Suave. Espero ter ajudado as mulheres entenderem melhor como essa dor funciona dentro do corpo de uma mulher em TP e as formas de vencer essa dor.

Se você gostou, venha para o próximo encontro!